Princípios da Música Litúrgica

Michelle Girardi

Para as diversas escolhas que fazemos na vida nos utilizamos de critérios. Nem sempre estamos tão conscientes dos porquês de nossas escolhas, mas algum critério (ou alguns) acaba pautando nossas escolhas. Ao comprarmos uma roupa podemos verificar o preço, estilo, cores, praticidade, por estar na moda, etc. Ao escolher uma escola para os filhos alguns priorizam a facilidade de deslocamento, a proposta pedagógica, as atividades extras oferecidas, a estrutura, ou diversos destes e outros critérios juntos. E assim, no nosso dia a dia vamos fazendo diversas escolhas.

Na nossa ação litúrgico-musical também precisamos estar pautados por critérios, princípios para melhor fazermos escolhas. Quais são os critérios que estão pautando nossas escolhas? Abaixo pontuo algumas breves dicas, baseadas no subsídio Princípios da Música Litúrgica, disponibilizado no site da CNBB.

Quatro princípios precisam caminhar juntos para que nossa ação na música litúrgica realmente seja adequada. Seriam os princípios:

– Teológicos
– Litúrgicos
– Pastorais
– Estéticos

Os princípios teológicos devem nos fazer refletir se a música realmente brota da vida da comunidade de fé e se ela reflete o Mistério Pascal que celebramos, levando a comunidade a penetrar profundamente neste mistério. Além disso, a música se insere na dinâmica do memorial, ou seja, precisa estar a serviço da recordação dos fatos salvíficos, para ser vivida no aqui e agora na comunidade cristã. Temos a riqueza da tradição bíblico-litúrgica e a música precisa estar enraizada, assim garantindo uma identidade, além de possibilitar que se beba em fontes ricas. Será que temos nos utilizado da Palavra para inspiração dos cantos? Será que as músicas que estamos cantando realmente refletem os princípios teológicos da Igreja?

Os princípios litúrgicos devem nos fazer refletir sobre o caráter ministerial de toda Igreja. Somos corpo, com diferentes funções: cantores, salmistas, instrumentistas, compositores, presidente, leitores, etc. O caráter ritual nos recorda que a música “brota de um rito e a ele se destina, profundamente sintonizada com o todo da celebração litúrgica.”1 É necessário que a música esteja à serviço da Palavra, assim facilitando a sua compreensão e não dificultando, como muitas vezes temos visto. O tempo litúrgico, as festas, o momento e gesto ritual devem ser outros pontos a que devemos ficar atentos.

Os princípios pastorais podem nos auxiliar a prestar atenção no tipo de assembleia que celebra. A comunidade possui diferenças de idade, quais as dificuldades apresentadas, qual o bairro no qual esta comunidade se insere? Questões referentes à assimilação de cantos novos, qual o repertório já conhecido, qual a formação litúrgico musical daquela assembleia devem ser levadas em conta.

Os princípios estéticos nos fazem ficar atentos à cultura musical de onde provém aquele povo. Podemos observar diferenças nas escolhas musicais de uma comunidade inserida num contexto urbano e outra no contexto rural, por exemplo. A linguagem poética dos textos deve ser levada em conta, evitando-se textos catequéticos, ideologizantes. A relação texto e música é de extrema importância e isto deve estar de acordo com os momentos e elementos de cada rito. Esta relação bem estabelecida entre texto e música exige conhecimento musical de compasso, métrica, cadência. Seria de extrema riqueza aprofundarmos o conhecimento de nossas raízes da música litúrgica e conhecermos um pouco de canto gregoriano, polifonia. As questões estéticas e técnicas musicais devem nos fazer refletir sobre o “belo”2.

A música mais apropriada ao uso litúrgico será aquela que estiver mais unida à ação litúrgica, como expressão suave da oração, favorecendo a unanimidade e dando solenidade aos ritos. (Cf. SC, 112). Fico me questionando se minhas escolhas têm sido expressões suaves da oração. Unanimidade sabemos que é uma tarefa nem um pouco fácil, senão impossível, mas será que aquilo que tenho escolhido não tem buscado agradar somente o meu gosto pessoal e do meu grupo?

Link para o subsídio Princípios da Música Litúrgica: http://www.cnbb.org.br/comissoes-episcopais-1/liturgia-1


1 Livro e Dvd Deixe a flor desabrochar – Elementos da Pastoral Litúrgica – Edições CNBB.
2 Sugiro a ler a Carta de João Paulo II aos Artistas, de 1999. http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists_po.html

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