Qual o timbre de nossa assembleia?

Michelle Girardi

Participei tempos atrás de uma formação litúrgica pelo Vicariato de Porto Alegre sobre a Palavra na Liturgia, ministrada pelo padre Gustavo Haas, referencial da Pastoral Litúrgica. Entre diversas coisas faladas, algo ficou ressoando profundamente em mim: qual o timbre de nossa assembleia?
Timbre é um termo difícil de ser definido, mas fácil de ser percebido. Timbre, segundo o Dicionário Grove de Música é um “termo que descreve a qualidade ou o ‘colorido’ de um som; um clarinete e um oboé emitindo a mesma nota estarão produzindo diferentes ‘timbres’.” Conseguimos, por perceber a diferença de timbre, diferenciar a voz de um amigo da voz de nossos pais. Um exemplo de relação do timbre com a nossa emoção é o fato de mesmo no telefone reconhecer que alguém está triste, pela voz, pelo jeito que soa. O timbre está profundamente associado com identidade, pois nenhuma pessoa possui um timbre exatamente igual ao nosso, e é através desta propriedade do som que diferenciamos o emissor do som, a fonte sonora.

Por assembleia entendemos o povo reunido para celebrar, uma reunião de pessoas para uma finalidade. Mas o que seria o timbre de nossa assembleia? Será que nossa assembleia possui um som próprio?
Quando ouvimos um bom coro podemos reconhecer uma voz cantando, uma unidade; quando escutamos um grupo não tão bom percebemos cada cantor esforçando-se e não conseguimos reconhecer um som, mas diversos sons. Esta questão é muito importante se aplicarmos à nossa vivência litúrgica. Nossas assembleias soam como uma voz? Não me refiro somente às questões técnicas da execução musical, mas também, será que podemos reconhecer nas nossas assembleias um só coração e uma só alma? (cf. At 4, 32)

Pela Missão Tabor tenho conhecido a realidade de muitas paróquias, e infelizmente tenho visto que o povo pouco tem cantando nas celebrações litúrgicas. Sei que são diversos fatores que colaboram para que isto esteja ocorrendo, mas o quanto isto nos tem feito refletir sobre a nossa ação na liturgia? O quanto os nossos cantos estão refletindo a vivência do momento litúrgico? Quanto nossos cantos estão enraizados na Palavra? Como tem sido nossos ensaios de cantos? O quanto temos pensado na nossa assembleia na hora de escolher determinados cantos que refletem uma experiência individual, e não comunitária? O quanto os microfones, equipamentos que eram pra ser usados para facilitar, estão atrapalhando e abafando a voz de nossa assembleia?

Eu como cantora, como responsável pelos cantos na missa não posso deixar de me perguntar onde estou falhando se minha comunidade não canta junto. É importante ressaltar que nem todos os momentos devem ser cantados por todos, e que infelizmente nossa interpretação sobre participação ativa às vezes é muito equivocada. Podemos participar ativamente prestando atenção também. O Papa Bento XVI, enquanto ainda era o Cardeal Ratzinger escreveu em seu livro Introdução ao Espírito da Liturgia que às vezes o sentido da palavra participação leva a equívocos e pensamos que é apenas um ato exterior como se todos tivessem que fazer algo, que estar em ação.

A Instrução Musicam Sacram (1967, n.5) registra que “mais profundamente se atinge a unidade dos corações pela unidade das vozes”. “Aquele que canta sai de seu isolamento interior e se coloca em atitude de se comunicar; renunciando ao próprio tom de voz e ao próprio ritmo, se acomoda ao tom e ao ritmo que o canto exige e contribui para a unidade do grupo.” (MARTÍN, p. 184) Espero que alguns questionamentos possam ser feitos e sonho em ouvir o timbre de nossas assembleias, fazendo que o canto una e reforce os vínculos de um grupo, sendo possível assim ouvir uma só voz e um só coração.

REFERÊNCIAS
DICIONÁRIO GROVE DE MÚSICA. Edição concisa. Jorge Zahar, 1994.

DOCUMENTOS SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA. Instrução da Sagrada Congregação dos Ritos Musicam Sacram sobre a música na Sagrada Liturgia. São Paulo: Paulus, 2005.

MARTÍN, Julián López. A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral. São Paulo: Paulinas, 2006.

RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da Liturgia. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 2010.

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